um dia para viver o luto.

Papai,

Eu não queimo velas, não levo flores, não me debruço mais sobre seu túmulo enquanto choro, não questiono os porquês de logo você não existir por aqui.

Eu vivo o luto deste dia, quietinha em casa, enquanto lembro o quanto você desejava o meu sucesso, rememoro sua voz dizendo que eu devia ser perseverança. E que se tenho um sonho intrínseco a isso vem o verbo lutar. Então eu luto.

Todos os anos depois que você se foi são de levantamento, de calcular o quanto caminhei e o quanto ainda falta, de anotar as conquistas que certamente nos deixaria radiantes, de pensar que a vida é possibilidade e que não se desiste tão fácil dela.

Eu uso esse dia para lembrar com carinho do homem que foi, do quanto tenho você em mim, na minha sensibilidade, no meu coração, na minha amabilidade, no cuidado com outro, na resistência, no caminhar dia a dia respeitando o meu tempo e espaço. Eu uso esse dia para agradecer por todas as marcas benevolentes que deixou.

A vida continua depois da eminência da morte. A vida ainda é possível. E ainda que as vezes a saudade perpetue, os passos não devem ser paralisados.

Parece uma utopia viver o luto de forma tão atípica, mas ainda assim prefiro sorrir ao pensar em você.

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A depressão vista por quem a tem.

Hoje eu queria permanecer encolhida, quieta, ouvindo o som da chuva que cai lá fora, enquanto minha mente tenta organizar as peças que não se encaixam na existência. Queria não precisar sentir o extremo de dor e não compreender por que o sinto.

Levantar da cama, ocupar espaços, encontrar pessoas, já não causam prazer, não estou apenas triste, é como se apesar de completo, faltassem diversos pedaços meus e toda essa falta me impede de seguir.

Eu rio, gargalho, dou colo e sou um bom ouvinte, mas do outro lado da história me sinto um filhote que se perdeu da mãe e que está no escuro, com medo, que sente cada partícula do corpo estremecer e diante dos olhos vê a vida esvair, e embora quisesse se agarrar a ela, não existem forças que impulsionem esse toque.

Passo horas olhando pro nada e esse nada que não faz sentido me prende na cama em um completo sentido de exaustão, o telefone toca, batem a porta, e tudo que antes fazia sentido, hoje me faz sentir não pertencente, como se apesar de existir em um universo imenso, não ocupasse sequer um lugar nele.

Sinto-me cansado, não é saudável, não é bonito, não é a vida que sonhei ter.

Eu ainda ocupo os espaços que antes me davam prazer, ainda encontro pessoas, ainda saio de casa, quando tudo que quero é permanecer encolhida longe de qualquer toque estranho, eu reluto, refuto, sobressaio e não desisto, no fundo sei que apesar de viver assim, não é isso que desejo viver e preciso lutar para alcançar um novo espaço, na liberdade de ser quem desejei ser.

Do lado de cá, os sentimentos são extremos, e a luta é diária, então, paciência com quem sente uma gota como tempestade. Paciência com quem se esgota, mas não deixa de caminhar, foi preciso coragem pra chegar aqui.

dia mau.

estou tomada por uma exaustão e desesperança, me sinto incapaz de existir, sequer levanto da cama, me debruço sobre a dor e choro. entre soluços e desordem rememoro com enfado a sujeira que deixou sobre o meu corpo, vou para o banho na ânsia de remover toda a culpa, mas a água não perpassa a alma.

sinto meu corpo expelir a angústia, a repulsa e o descontentamento, ainda em pranto me desespero e me perco em um arsenal de lembranças inescrupulosas. jogada no chão, enquanto a água cai, imploro que meus órgãos deixem de produzir vida, tapo a respiração e desisto, em instantes retomo o ar e percebo que eu ainda existo.

Refuto a dor, volto para cama, sinto a soturnidade de cada memória, minha alma se apavora, enfraqueço e desfaleço na ânsia de esquecer o que corrói meu pensamento.

estou exausta, entupida de ansiolíticos, mas quanto mais durmo, mais cansada eu fico, o cansaço estrapola meus limites físicos, vai além do que se enxerga e pode resolver dormindo.

 

amanhece, me levanto e recomeço,

respiro e sinto o ar passar entre os nós da minha garganta

mas, continuo.

 

Fora do meu quarto eu exerço de uma força que até eu desconheço, eu luto pela minha sobrevivência e eu sei que um dia a existência pesará menos para mim.

eu sigo em frente.

Resista.

A minha história inteira se remete a resistir.

eu resisti desde o início, a cada rejeição pré e pós meu nascimento, resisti ao abandono, a negligência, a maldade, resisti quando fui abusada sexualmente, moralmente e emocionalmente, resisti a depressão, a ânsia da existência e a cada tentativa de desaparecer em um mundo cruel.

eu resisti quando perdi meu pai e me vi tão sozinha que cheguei a pensar que a solidão iria me sucumbir.

resisti quando as pessoas foram cruéis comigo.

meu corpo que se acostumou a resistir, resistiu às minhas tentativas de auto-sabotagem, resistiu quando tentei suicídio.

meu corpo ainda resisti a dor, ao medo, a ansiedade que me destroça e a depressão que me faz desacreditar.

minha mente resiste aos meus sentimentos incontrolados, que em dias me fazem amada e em outros me tornam desprezível, não que eu seja, mas me sinto.

eu resisto quando estou na faculdade.

em casa

na rua.

presumo que a existência é a resistência.

que só se persevera por que nos colocamos diante das situações cruéis e lutamos contra elas, nos posicionamos e não aceitamos que elas determinem o que somos e o que podemos ser.

não se pode desistir da primavera só porque o inverno foi rigoroso demais.

não se pode desistir do amor só por que alguém não o foi.

não se desisti da vida por que um dia deu errado.

escuta, amanhã pode ser um novo dia.

SETEMBRO AMARELO: VOCÊ VALE MUITO.

Suicídio, essa palavra me soa familiar, não faz muito tempo pensava ao acordar, ao ir dormir, durante as 24 horas que o dia tem. Eu ansiava pela coragem, eu planejava cuidadosamente e um dia eu tentei por em prática, eu estava cansada.

eu chorei por incontáveis noites sozinha, senti a alma rasgar, o corpo doer, sentia cada pedacinho meu desistir de me constituir. Existir era um peso.

eu cai

eu pensei que não poderia ser amada

que não faria falta

que o espaço que eu estava não faria diferença se ocupado ou não

a depressão me fez acreditar que eu não era suficiente.

que não tinha um lugar para mim no mundo.

eu passei pela exaustão, eu desacreditei da vida e eu já desejei sentir o gosto da morte, mas, EU PASSEI.

eu continuo aqui.

Eu não sei qual é a carga da sua existência, não sei quais partes gritam, se suas memórias te aterrorizam, se os efeitos colaterais da vida te fazem pequenininha, mas sei que a vida ainda vale, sei que podemos caminhar, ainda que devagarinho, um passinho por vez, em um tempo só nosso, vale a pena continuar.

respire comigo.

lembre-se você nasceu para um propósito, você tem um espaço preparado para você ocupar e embora sua visão esteja embaçada agora, não cancele sua história. De uma pausa, descansa, respira, fuja da realidade, mas por favor, não desista de viver tudo o que você ainda vai escrever em sua história.

Não desista de existir aqui.

Descanse.

Tem dias que o nó da garganta nos faz incapaz de seguir, os ombros tensos e a memória agitada geram uma exaustão e tudo que em absoluto desejamos é deitar em um canto qualquer e chorar diante do peso que a vida causa.

e tudo bem.

tudo bem parar um pouco e descansar, exigem tanto de nós que nos roubam o tempo de ser quem somos de melhor para quem devia ser nossa prioridade. já não nos ouvimos e acolhemos, não nos permitimos ter um tempo a sós, parar no espelho e declarar algo de paz e esperança sobre a vida. parar e respirar um pouco. parar e deitar e alinhar os pensamentos aleatórios, dolorosos e confusos. Somente parar e existir para si.

não se desiste da vida, mas se cansa dela e como todo cansaço é necessário parar, respirar, descansar cada parte do corpo e sair da posição ínfima da vida com coragem. a vida cansa, as pessoas cansam, ser humano cansa, somos frágeis, vulneráveis e se não pararmos um pouco não chegaremos a lugar nenhum e se chegarmos certamente nossos pedaços ficaram durante o caminho, a falta de tempo nos faz perder.

não desista, mas descanse.

um passo de cada vez.

um dia após o outro.

tudo no tempo que der pra ser.

um vazio no dia dos pais.

Lembro do peso daquele dia, lembro do cheiro das flores, da vela ardente, das pessoas chorando e comentando o quão injusto tudo foi e como você ainda tinha uma vida inteira para viver.

Eu consigo ouvir o eco das pessoas com pena dizendo que nós perdemos um ao outro.

Em um primeiro momento foi confuso, achei que era um alívio porque você estava sendo muito punido nos últimos meses, e me doía ver você assim.

Mas num segundo momento pensei: e agora ? O que eu faço agora? Eu estou sozinha.

Os dias seguintes eram para processar o que aconteceu.

E quando processei, percebi que havia uma dor dentro de mim, um vazio, algo que estava sendo rasgado de dentro de mim. É uma dor sem fim. Era o meu pai.

O meu coração estava vazio. Um canto da casa estava vazio. E tudo o que me tinha deixado eram flores para deixar em um túmulo.

Ninguém parou em respeito da minha dor, a vida continua e a gente vai a pedaços, tudo que eu queria era estar com você.
Precisamos de coragem para valorizar a nossa própria vida após a eminência da morte. Precisamos de coragem para que as lágrimas dêem caminho a uma saudade cumprida, uma boa saudade que parece que nunca vai chegar, mas ela chega.

Hoje, tudo que enquanto filha eu desejo é que a minha maneira de viver possa honrar o amor que eu sinto por você.

Feliz dia dos pais.

Que o soprar da eternidade te leve um abraço meu.